Para uma solução condigna

Muito gostaríamos que este pudesse vir a ser apresentado, no futuro e mormente em época de eleições, como um caso de sucesso da actual governação.
Ou seja, que, apesar de não se ter preocupado devidamente e em tempo oportuno, com a solução a dar ao que provisoriamente ali ficara instalado, conseguiu, em escassas semanas e mercê da congregação dos esforços dos ministérios envolvidos, lançar mãos a uma solução condigna, que lhe enaltece a eficácia.

José d’Encarnação


26 junho, 2008

A informação não sabe nadar


Quando me deram a conhecer a petição em curso dirigida ao Ministro da Cultura sobre o futuro da biblioteca, arquivo e publicações do ex-IPA, além de a subscrever, dirigi uma mensagem sobre ela a todos os meus amigos e conhecidos que não são arqueólogos.

Porque esta não é (mais) uma questão de arqueólogos. É uma questão de salvaguarda de informação.

Como arqueólogos, sabemos bem que muitas vezes a informação por nós produzida é tudo quanto sobra de um sítio com ocupação humana antiga quando uma auto-estrada lhe passou por cima, a albufeira de uma barragem o submergiu. Mas talvez essa dimensão passe despercebida a outros que não sejam oficiais do ofício e é importante fazer passar essa mensagem.

Infelizmente não temos dados concretos, mas temos ideia que em Portugal neste momento se gasta muito mais dinheiro com trabalhos arqueológicos do que alguma vez aconteceu. E sobretudo dinheiro público, já que a grande maioria dos trabalhos arqueológicos, directa ou indirectamente, se faz no âmbito de obras públicas e estudos de impacte de grandes empreendimentos promovidos pela administração pública ou por empresas em que o Estado é o principal accionista. Ou, quando o financiamento é privado, também maioritariamente isso é consequência de condicionantes impostas pela administração central, regional ou local ao licenciamento de obras particulares.

Os mesmos poderes públicos que, por imposição das leis nacionais e convenções internacionais, determinam que se invista em trabalhos arqueológicos, preparam-se para deixar desmantelar o arquivo histórico da arqueologia portuguesa, a maior biblioteca especializada em arqueologia e para descontinuar a linha editorial que o Ministério da Cultura tinha dedicado ao património arqueológico. Preparam-se para afogar a informação produzida por décadas de trabalhos arqueológicos e para submergir dois importantes mecanismos de estímulo à investigação e à produção de novos conhecimentos e reflexões sobre informação arqueológica.

Como quero acreditar que o Estado continua a ser uma pessoa de bem, só posso achar que isto é resultado de alguma desatenção circunstancial. Alguém, sem dar conta, fez uma grande asneira que ainda pode ser corrigida. Tem que ser corrigida, sob pena de termos de considerar que o Estado assumiu a condição esquizofrénica de impor o investimento numa actividade destruindo simultaneamente o seu produto.

Enquanto cidadãos e não (só) enquanto arqueólogos, temos a obrigação de chamar a atenção do Estado de que não vale a pena investir em trabalhos arqueológicos sem salvaguardar a informação que a partir deles é produzida.

Maria José de Almeida

Presidente da Direcção da Associação Profissional de Arqueólogos

1 comentário:

Australopithecus XXI disse...

A grande asneira foi a criação do IGESPAR, onde ninguém sabe o que faz.
A grande asneira foi deixar as coisas acontecerem enquanto a maioria dos arqueólogos só ficavam no blá, blá, blá…
A grande asneira foi não existir uma mobilização nacional desde o inicio.
Onde é que estão aquelas pessoas que foram para a rua na época do Durão Barroso?
Se vocês não sabem, eu sei:
Alguns ocupam cargos conseguidos através de tachos políticos, outros possuem empresas, a malta jovem anda completamente a leste devido a péssima formação que é oferecida e uma minoria ainda luta (cansados mas ainda lutamos).
Neste momento não vale a pena chorar o leite derramado. Devemos estar sempre atentos e não deixar as coisas acontecerem e não tentar mobilizar ou chamar a atenção quando algo já aconteceu.
Agora é tarde. Não precisava ser bruxo para adivinhar as consequências.
Veja o post publicado em 29/06/2006
http://imbeciltuga.blogspot.com/2006/06/uma-morte-anunciada.html